Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Cartografia

 

 
por: Leonor Figueiredo    
 
Algumas das 240 cartas inéditas que viram a luz do dia num recente levantamento de cartografia do século XIX e são mostradas pela primeira vez no colóquio internacional que começa hoje em Lisboa "estavam embrulhadas desde 1936", diz, ao DN, a investigadora-coordenadora do Instituto de Investigação Científica e Tropical (IICT).
 
Maria Emília Madeira Santos, autora do "achado", a trabalhar há 40 anos no IICT, explica que as cartas se encontravam junto de outra documentação da Comissão de Cartografia (rebaptizada em 1936) enviada para o Arquivo Colonial naquele ano.
 
A importância da cartografia do tempo do império colonial português, realça a investigadora, deve-se ao facto "de ser de cariz político, com as suas conveniências junto das outras potências coloniais europeias, perante as quais convinha ocultar pormenores para a futura e difícil negociação de fronteiras - em alguns casos chegou a demorar 40 anos -, como foi o caso dos cursos de água junto à actual Namíbia".
 
Estas e muitas outras cartas serão apresentadas no colóquio internacional "Cartografar África em Tempo Colonial (1876-1940): Um Registo Patrimonial para a Compreensão Histórica dos Tempos Actuais", que tem hoje início em Lisboa, no auditório do Centro Cultural de Macau, na Rua da Junqueira, e termina sexta-feira. O objectivo é o de apresentar estudos feitos sobre os mapas cartográficos que resultaram das missões científicas realizadas nos séculos XIX e XX na África Lusófona.
 
80 mil mapas na Net
 
O colóquio acontece na fase final de um projecto adiado durante muitos anos, mas finalmente financiado, em 2003, para três anos, com 150 mil euros pela Fundação da Ciência e Tecnologia. O projecto permitiu a construção de um banco de dados que reuniu o património disperso - só estará a funcionar em 2007 -, designado por Comissão de Cartografia Virtual, onde ficarão acessíveis 80 mil imagens, de material recolhido em quatro locais diferentes do IICT.
 
A documentação encontrada - composta também por manuscritos, impressos, croquis, fotos (que reproduzimos), cadernetas de campo e instrumentos de observação astronómica, considerados "magníficos" - é importante para várias áreas, como a política, a diplomacia, a antropologia, a geografia, a botânica e a história.
 
"Esta cartografia do último quartel do século XIX desempenhou um papel importante na partilha de África e foi usada como meio para obter a soberania nas áreas abrangidas", destaca a historiadora especialista em África que apresentou o projecto "para salvar este património de grande valor", depois de uma exposição efectuada para a Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos, no início dos anos 90.
 
Realidades sobrepostas
 
Maria Emília Madeira Santos considera ser enorme a importância desta cartografia como fonte histórica. Faz notar que "a história de África e a história colonial só têm sido feitas com base em fontes escritas, sem se recorrer a esta cartografia pormenorizada e direccionada politicamente".
 
Quase de costas voltadas perante uma área do saber que "cresceu nos séculos XV e XVI e mais tarde foi estudada por homens com formação em ciências exactas, como Luís de Albuquerque e Teixeira da Mota", a cartografia, defende a historiadora, "mostra como o espaço africano tem características bem diferentes do espaço colonial", e daí também ser importante para pontos referenciais de então.
 
"O território move-se com os homens. O rei africano e a sua corte podem mudar de sítio, o que acontece quando morre um soba, mas o seguinte constrói nova corte. O espaço é caracterizado pela presença do homem. Na corte africana, os seus súbditos podem viver muito longe, mas estão ligados por 'carreiros'. O rei sabe de que serviços pode usufruir."
 
No tempo colonial o espaço africano foi dividido segundo os interesses, mas o outro espaço, o africano original, continua a existir 'por baixo' deste". Por isso a cartografia alarga a possibilidade de compreender a realidade africana", acentua.
 
No final da concretização do projecto, o IICT vai oferecer a todos os países da comunidade lusófona as cartografias referentes a cada um, em suporte digital.
 
Trabalho até 1975
 
"Estas cartas são o resultado de muitos anos de trabalho que cruzam diversos autores. Recordemos as cartografias dos exploradores científicos Capelo e Ivens, Henrique de Carvalho, Serpa Pinto e Augusto Cardoso, no século XIX, a que se acrescentaram a cartografia das campanhas militares. E as que se realizaram após 1936 beneficiaram com as missões geográficas mais modernamente equipadas."
 
Para concretizar algumas destas cartas foi indispensável a colaboração dos engenheiros geógrafos nas missões. Profissionais que, em Angola, fizeram a marcação de três mil marcos geodésicos (actividade a que se referem algumas das fotos que publicamos), um trabalho "que os obrigava a fazer escaladas em sítios inacessíveis", nota a historiadora, e que se prolongou por décadas.
 
"Trabalharam até 1974 e ainda lá voltaram em 1975. Falta (re)observar 50 pontos altos dos três mil que continuam a ser importantes para os GPS funcionarem no terreno. Este trabalho está feito, é de muito valor e não se deve perder", conclui Maria Emília Madeira Santos.

DN de 7.Nov.2006
 
 
publicado por jdc às 23:02
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